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Betânia – Um cortejo maranhense em forma de cinema Betânia – Um cortejo maranhense em forma de cinema

Betânia – Um cortejo maranhense em forma de cinema

Betânia (Diana Mattos) é uma mulher parteira que vive nos lençóis maranhenses, em uma casa isolada, distante dos povoados maiores. Após perder o marido, a comunidade se reúne em rituais tradicionais marcados por muita cantoria para se despedir do falecido, num momento coletivo de luto profundamente simbólico. Desde o início, o filme de Marcelo Botta revela seu compromisso em registrar com respeito a cultura tradicional popular do Maranhão.

Essas manifestações evocam uma identidade nordestina bastante reconhecível. Mesmo sabendo que o Nordeste abriga múltiplas identidades culturais, certos cantos e tradições presentes no filme compõem o imaginário coletivo do que se entende como regional. Há, porém, referências específicas à cultura maranhense — como a festa do bumba meu boi e a forte presença do reggae. Também surgem elementos do cotidiano, como as bebidas tiquira e o guaraná rosa, que, mesmo sem rótulo de marca famosa, remetem a hábitos de consumo tipicamente locais.

O filme também denuncia os problemas ambientais da região: a poluição vinda do Atlântico, o avanço das dunas sobre rios e lagoas, e as consequências disso para a vida da população. Outro aspecto importante é o impacto do turismo, que, embora traga renda, modifica a configuração social local, afastando comunidades de seus hábitos tradicionais em prol de uma economia voltada à recepção de visitantes.

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Crédito: divulgação

Mas os conflitos vão além dos impactos externos e adentram o núcleo familiar. Após perder sua casa em um incêndio acidental, Betânia vai morar com parentes em uma área mais urbanizada. Lá, acompanhamos dramas cotidianos: uma senhora evangélica, enganada por um pastor, que pressiona a filha a seguir a doutrina da igreja, apesar do sonho da jovem de se tornar DJ de reggae; um pai ausente, que se torna guia turístico para sustentar a casa, mas não consegue estar presente na vida do filho; e um velho pescador, que já não consegue mais trabalhar devido às transformações no ambiente.

No centro de tudo isso, Betânia permanece firme como uma rocha — mentora silenciosa, conselheira ativa, figura materna para muitos, mesmo quando não está no foco da narrativa. O diretor Marcelo Botta constrói arcos dramáticos bem resolvidos, em que tudo converge para consagrar Betânia como uma protagonista inspiradora. Sua força está mais em suas atitudes e na presença que em grandes gestos heroicos.

A trilha sonora — que mescla reggae e cantos tradicionais — é constante e carrega um valor quase documental. Isso contribui para que o filme, embora seja uma obra de ficção, tenha um impacto que transborda a tela, registrando com afeto e autenticidade uma realidade que precisa ser vista.

Betânia é, do começo ao fim, um cortejo: fúnebre, alegre, musical e profundamente maranhense.

Por Hélio Mesquita.