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Animais Perigosos: previsível e galhofa, mas com carisma

Filme é uma mistura de tubarões e serial killer em um terror irreverente

Desde “Tubarão” (1974) Steven Spielberg, o subgênero de monstros marinhos nunca deixou de ser explorado, com novos filmes de tubarão surgindo ano após ano — quase sempre reverenciando a obra-prima de Spielberg. Em Animais Perigosos, a direção aposta em um caminho irreverente ao misturar filme de tubarão com narrativa de serial killer. O resultado é irregular, mas curioso, entregando uma boa peça de entretenimento.

A trama apresenta a surfista Zephyr (Hassie Harrison), sequestrada pelo serial killer Bruce Tucker (Jai Courtney), obcecado por tubarões. Ele a mantém cativa em seu barco, junto a outra mulher, usando-as como isca em um espetáculo macabro registrado em vídeo. Desde os primeiros momentos, o filme não teme o ridículo — e seu maior trunfo está justamente no vilão.

Bruce é um personagem fanfarrão, sádico e, ao mesmo tempo, carregado de carisma. Sua presença rende cenas tensas e engraçadas, equilibradas por um background trágico introduzido de forma breve, sem atrapalhar o ritmo da trama. Seu nome, inclusive, é uma referência direta ao animatrônico usado em “Tubarão”. As mortes, apesar de poucas, são criativas e bem filmadas, explorando os tubarões de modo inventivo e sem reforçar o estigma de monstros. Aqui, os verdadeiros “animais perigosos” não são os do mar.

Animais Perigosos tem personagens que se salvam na atuação

A fotografia e a edição também merecem destaque. A introdução nas praias da Austrália traz inspiração em linguagens audiovisuais da internet, mas a mescla funciona. Mesmo com orçamento visivelmente limitado, a equipe criativa consegue compor imagens de impacto ao longo da obra. O diretor Sean Byrne, ao lado do diretor de fotografia Shelley Farthing-Dawe, aposta em uma estética marcada pelo azul predominante, que contrasta com o vermelho do horror — uma analogia visual a “Tubarão”. O resultado mostra como, mesmo trabalhando com clichês, o filme soube explorar signos visuais com inteligência.

O roteiro, assinado por Nick Lepard, é o ponto mais frágil. Previsível e telegrafado, carece de maior sensibilidade emotiva. O casal protagonista, interpretado por Josh Heuston e Hassie Harrison, tem uma boa premissa, mas sua relação parece forçada e pouco natural, lembrando produções juvenis de canais como o Disney Channel. Ainda assim, Harrison consegue segurar a personagem com presença em tela. Já as decisões estúpidas dos personagens, embora numerosas, não comprometem, pois condizem com o tom absurdo e humorístico do filme.

“Animais Perigosos” está longe de ser um grande filme, mas tem carisma suficiente para divertir. Seus visuais marcantes, a mistura irreverente de gêneros e um vilão memorável fazem dele uma experiência peculiar — uma obra que, apesar de irregular, merece atenção dentro do terror contemporâneo.

Por Tiago Maia.