Muitas vezes, criar filhos é descrito como uma das tarefas mais ingratas do mundo: você abdica do tempo que seria dedicado a questões pessoais para prover a uma ou mais pessoas dependentes sua, e ainda que dê o seu melhor o tempo todo, nada garante que tudo dará certo. Desde a gestação, passando pela infância e adolescência até a fase adulta, os pais lidarão com medos, acidentes, incertezas, escolhas mal feitas e, muito possivelmente, o abandono após a missão ser cumprida. Adolescência (Adolescence, 2025), nova minissérie policial da Netflix, usa esse tema como base para discutir muita coisa – e o gosto no final é amargo.
A história é contada em quatro episódios, e neles, temos quatro momentos diferentes de um caso de assassinato, no qual um menino de treze anos é subitamente acusado pelas autoridades. Convictos de que o garoto não é o autor de tal ato, a família busca entender o que está acontecendo para poder livra-lo da detenção o mais rápido possível. Já as autoridades policiais, por sua vez, acreditam possuir provas suficientes para a condenação, bastando apenas esclarecer detalhes como a motivação do ato ilícito, assim como encontrar a arma usada no crime.
Adolescência não é o que parece no início – mas é muito mais real do que você pensa
É interessante como a expectativa nos trai constantemente ao assistir determinada produção, mas isso não significa se tratar de algo ruim. Se ao ver um filme de super herói o público pode se decepcionar fortemente com a falta de fidelidade da adaptação, no caso de um thriller policial o efeito da quebra da expectativa pode ser imensamente benéfico, contanto que as coisas sejam bem feitas.

Pois esse é o caso desta série da Netflix, dirigida em sua totalidade por Philip Barantini a partir do roteiro de Jack Thorne e Stephen Graham (que também está no elenco). Logo de início, a fragilidade do menino Jamie Miller (Owen Cooper) nos convence de que ele está sendo arrastado para a detenção por algum engano ou injustiça, uma vez que sua família está totalmente abalada com o caso e ele jura de pés juntos a inocência. Enquanto nos entretemos com a imersão pela ambientação de cidade pequena e a linearidade do competentíssimo plano-sequência de cada episódio, vamos percebendo que talvez estejamos sendo levados a assimilar tudo pelo viés dos pais.
Essa percepção é reforçada no segundo episódio, quando o principal objetivo da polícia, representada na figura do oficial Bascombe (Ashley Walters), vai até a escola tentar encontrar a arma do crime e acaba descobrindo mais envolvidos no caso. Algo tratado como secundário, no entanto, passa a ser como uma ferramenta girando a manivela da mudança de gênero desta minissérie: é quando o thriller policial passa a, majoritariamente, explorar as nuances dramáticas que um caso assim pode explorar. Isso tudo ocorre com uma fluidez elogiável, e o que antes era uma expectativa acerca de mistérios se torna a angústia em tentar entender como esses personagens podem ir além nesta situação.
A transição do foco narrativo em Adolescência acaba nos levando a um tema extremamente delicado, tanto pela falta de efetividade no combate deste que pode ser considerado um mal social, quanto por dar holofotes a uma vastidão de garotos e homens reprimidos e sem o devido amor em casa: a cultura incel, ou os celibatários involuntários, ou os red pills… ou tudo isso junto. Em suma, garotos que odeiam mulheres por não estarem devidamente munidos para lidar com as frustrações que o mundo oferece.
O principal tema que acaba sendo abordado em Adolescência é, portanto, o quão intangível são para os pais os sinais de que seus filhos podem acabar se tornando o que Jamie se torna na trama. Claro que, de todo modo, há um componente hereditário nisso tudo como bem podemos perceber na fala do pai, Eddie, ao se justificar de que nunca agrediu o filho e que o pai dele sim o espancava para valer, e ele não queria reproduzir esse comportamento.
O atraso que a geração mais velha possui em relação a esse “novo idioma” das redes sociais é muito bem representado no momento em que o filho do policial menciona a pílula vermelha, e o pai simplesmente pensa que ele está falando do filme Matrix, sem saber do contexto real da situação.
Acontece que, mesmo não havendo agressão física, Eddie se mostra uma pessoa potencialmente violenta e passa a sensação de medo aos que o cercam a todo momento, gerando em nós, meros espectadores, uma enorme tensão devido à sua imprevisibilidade emocional. Stephen Graham, que já trabalhou com o diretor em O Chef, brilha em seu papel nesta minissérie. Aliás, se não bastasse como ator e redator, Graham está tão envolvido aqui que até se tornou produtor executivo. Também é bom destacar a ótima atuação de Erin Doherty como a psicóloga que aparece apenas no terceiro episódio de Adolescência.
Afinal, vale à pena assistir Adolescência na Netflix?
Diferente do filme recém-lançado Delicious, no qual temos uma ampla possibilidade de discussão sobre o lugar dos jovens na sociedade atual (o que acaba sendo pouco desenvolvido pela diretora em prol do choque final), em Adolescência parece que o combinado foi exatamente o contrário, lançando-se mão de uma firme (e talvez necessária) observação do quanto estamos perdendo o controle a respeito dos futuros novos adultos que irão habitar o nosso mundo.
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