Dirigido por Brian De Palma em 1976, “Carrie: A Estranha” é um marco do cinema de terror e uma das adaptações mais fiéis (e criativas) da obra de Stephen King. Mais de quatro décadas depois, o longa ainda é um pilar no gênero, e referência (não é à toa que ganhará em breve uma série no Prime Video), misturando de tragédia, violência sobrenatural e um final que vai muito além do simples “susto”. Quais são os significados por trás daquela noite de baile sangrenta e por que a história de Carrie White continua tão perturbadora, até mesmo para os dias atuais?
O que houve no fim de “Carrie: A Estranha”?
O clímax do filme ocorre no baile da escola, o momento em que Carrie (interpretada por Sissy Spacek) finalmente se sente aceita. Coroada rainha do baile, ela é atingida por um balde de sangue de porco, uma cruel brincadeira orquestrada por seus algozes. O que se segue é uma das sequências mais icônicas do cinema: Carrie, em completo silêncio, vê todos ao seu redor rindo, ou assim sua mente perturbada acredita.
Ela então usa seus poderes telecinéticos para trancar as portas do ginásio, liberar uma mangueira de incêndio e eletrocutar professores e alunos, incendiando o local. Ao sair, ainda enfrenta Chris e Billy, que tentam atropelá-la, mas ela faz o carro deles capotar e explodir, como se não fosse nada.
Em casa, confronta sua mãe fanática, Margaret, que a esfaqueia. Carrie responde usando seus poderes para impalar a mãe com facas, que podemos interpretar como a crucificação de Cristo, simbolizando o fim do domínio religioso abusivo. O filme termina com a casa desabando sobre Carrie, e uma cena final de sonho em que Sue, a única que tentou ajudá-la, é puxada pelo braço por uma mão que emerge do túmulo de Carrie.

As diferenças entre o filme e o livro de Stephen King
De Palma fez algumas alterações importantes no final. No livro, Carrie não se limita ao ginásio; pelo contrário, ela destrói parte da cidade, corta linhas de energia e mata centenas de pessoas. No filme, a vingança é mais contida, fazendo com que ela seja uma figura muito mais trágica do que monstruosa.
Outra mudança é a morte de Margaret. No livro, Carrie para o coração da mãe telecineticamente. No filme, ela morre pelas por facas. E isso pode ter sido uma escolha visual mais poderosa. Além disso, o filme elimina a habilidade telepática de Carrie e a explicação científica para seus poderes, deixando tudo mais ambíguo e sobrenatural.
O trauma, a culpa e o ciclo que não se quebra
O final de “Carrie: A Estranha” não é apenas sobre vingança, mas uma explosão do trauma reprimido. Carrie é uma garota abusada em casa e humilhada na escola, e seus poderes são a única ferramenta que ela tem para reagir. Quando ela vê todos rindo, mesmo que muitos não estivessem, sua mente distorce a realidade, transformando o baile em um campo de batalha onde todos são culpados.
A sequência do sonho com Sue é a chave para o verdadeiro significado do filme. Mesmo após a morte de Carrie, o trauma continua vivo. Sue, que tentou reparar o mal que fez (ao fazer Tommy levá-la ao baile), carrega a culpa e o horror de ter sobrevivido. A mão que emerge da terra não é um fantasma vingativo; é a materialização da culpa que nunca vai embora. O ciclo de abuso e isolamento não termina com a morte de Carrie, ele se perpetua na mente dos que ficaram.
O fim funciona totalmente porque é um choque visual (com o sangue, o fogo) mas também é uma catarse emocional. Muito provavelmente, você, que acompanhou a tortura de Carrie durante todo o filme, sente alívio quando ela se vinga, mas também há um desconforto ao vê-la matar inocentes. A ambiguidade moral é o que torna o filme tão duradouro.
Além disso, a cena final com a Sue transforma “Carrie: A Estranha” (1976) em uma alegoria sobre a perpetuação do trauma. Carrie pode ter morrido, mas sua dor continua viva em Sue, que terá que viver com a culpa pelo resto da vida. É um lembrete sombrio de que, em histórias de abuso, as consequências nunca afetam apenas a vítima.

Crítica
“Carrie: A Estranha” (1976) não é apenas um filme de terror; é uma tragédia grega moderna, onde o sobrenatural é apenas o veículo para explorar temas universais como isolamento, religiosidade tóxica e culpa. O final, com a violência catártica e seu epílogo, permanece poderoso, porque nos lembra que o verdadeiro horror não está nos poderes telecinéticos, mas na crueldade humana.
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