Chegando em breve nos cinemas, Pinóquio ou The Golden Key: A New Pinocchio Story (como ficou o título em inglês, mas o filme é russo) se propõe a ser uma releitura moderna do clássico boneco de madeira baseado no livro de Aleksei Tolstoi. No entanto, o que o diretor Igor Voloshin e sua equipe entregam é um exercício de frustração: algo que troca a leveza e a magia das versões anteriores por uma melancolia vazia e um pseudoexistencialismo que não convence. Se a intenção era inovar, o resultado foi um afastamento radical que a essência da história simplesmente desaparece.
Transformando o menino ousado num adolescente melancólico
A maior mudança, e também a mais problemática, é o próprio protagonista. O Pinóquio (ou Buratino) que conhecíamos no ocidente é personagem cheio de energia, com uma curiosidade que beirava a imprudência. Ele errava, aprendia e evoluía. Era uma figura que crianças adoravam e adultos reconheciam como um arquétipo da infância real.
Em “The Golden Key”, o boneco de madeira se tornou um adolescente melancólico e autocentrado, obcecado por sua própria “diferença” e em busca desesperada de aceitação. Ele não age, ele reflete. Em vez de aventuras, temos longos monólogos internos sobre identidade e rejeição. A crítica não é contra a inclusão de temas profundos – fábulas sempre os tiveram – mas contra a substituição completa da ação pela introspecção entediante. O resultado é um personagem que não inspira simpatia nem admiração; ele apenas cansa.

Pinóquio e o vazio da narrativa
Em 1975, uma adaptação do livro de Tolstoi saiu pelo cinema soviético. Eu não conhecia. Mas olhando algumas cenas da adaptação da época já mostram que o irrela era o que comandava Pinóquio. Há a fuga do teatro de Karabas, o encontro com a raposa e o gato, a passagem pela Terra dos Tolos, o lago da tartaruga. As cenas mostram uma camada de evolução. Já o filme de Voloshin, por outro lado, descarta quase todos esses elementos. O teatro de marionetes é reduzido a um cenário de fundo. A raposa e o gato são retratados como criminosos comuns que, por razões nunca explicadas, se redimem do nada.
A Terra dos Tolos (ou País dos Tolos), que no original é uma sátira à ganância e à ingenuidade, se transforma em um cassino genérico cercado por uma cidade grande. Por que Karabas e seu teatro itinerante não simplesmente se instalariam ali? Porque o roteiro não se importa com coerência; ele se importa apenas com a próxima imagem bonita.
A subversão moral
Um dos pontos mais controversos é a desconstrução dos vilões. Karabas-Barabas não é mal; ele apenas “teve uma infância difícil”. A mensagem implícita é que não existem pessoas más, apenas incompreendidas. Em uma fábula infantil, isso é simplista. O filme parece esquecer que histórias como Pinóquio funcionam porque opõem claramente o certo e o errado, a virtude e o vício.
No final de “The Golden Key: A New Pinocchio Story”, por exemplo, o boneco continua de madeira. A justificativa? “Você não precisa mudar para ser amado”. A mensagem é bonita e muito atual, mas completamente deslocada. O personagem não evoluiu, não superou seus defeitos, não fez nenhum sacrifício. Ele é aceito exatamente como começou, o que transforma toda a jornada em um passeio circular sem propósito.

O visual e a música são pontos altos em “The Golden Key: A New Pinocchio Story”
Se há algo a elogiar, é a produção. Os cenários da cidade italiana são bem bonitos, com ruas cheias de paralelepípedos, construções bem feitas e uma iluminação que remete à pintura renascentista. O figurino de Nadezhda Vasilyeva é impecável, e a direção de arte criou uma atmosfera visualmente rica. O problema é que tudo isso serve a uma narrativa oca.
A trilha sonora reaproveita temas clássicos, mas com arranjos modernizados que parece algo retirado do TikTok – ou foi impressão minha. As canções originais não são ruins, mas estão mal integradas à ação. Os atores se esforçam, e alguns conseguem roubar a cena com atuações carismáticas. Mas nem mesmo eles conseguem salvar um roteiro que parece ter medo de ser divertido.

Crítica de Pinóquio (2026) ou The Golden Key: A New Pinocchio Story
“Pinóquio” (2026) ou “The Golden Key: A New Pinocchio Story” é um exemplo de como a modernização mal pensada pode destruir um clássico. A busca por temas “adultos” e “relevantes” não é um problema em si, muitas adaptações conseguem equilibrar diversão e profundidade, como foi o caso sensacional que Guillermo Del Toro fez com a Netflix. O problema aqui é a execução.
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