Nos anos 90 e no início dos anos 2000, os estúdios Pixar dominaram o mundo das animações com filmes divertidos, profundos e capazes de entreter crianças e adultos. O problema é que o estúdio passou a depender demais de uma fórmula que, embora eficiente, começou a dar sinais de desgaste. Em determinado momento, muitos de seus longas transmitiam a sensação de repetição, como se seguissem um conjunto de regras pré-estabelecidas. Em 2026, o novo filme do estúdio chega aos cinemas: Cara de Um, Focinho de Outro (ou Hoppers no original).
A sinopse apresenta uma premissa interessante. Em um mundo onde cientistas desenvolvem uma tecnologia capaz de transferir a consciência humana para corpos de animais robóticos, a jovem Mabel decide usar a invenção para viver como um castor mecânico. Ao explorar a vida selvagem de perto, ela cria laços com as criaturas locais e encara um universo que nunca imaginou. Quando o habitat é ameaçado pela ação humana, Mabel precisa reunir coragem e empatia para protegê-lo. É uma aventura que aborda conexão, responsabilidade e respeito à natureza. Mesmo assim, o filme parece seguir fielmente todas as convenções clássicas da Pixar e não demonstra o mesmo impulso de inovação visto em obras como Ratatouille e outros longas consagrados.

Em Hoppers, tudo parece organizado segundo uma lista de pontos obrigatórios. A protagonista precisa superar um trauma, embarcar em uma jornada por um mundo desconhecido e retornar ao seu ponto de partida transformada. O roteiro até sugere desfechos alternativos ao longo da trama, mas escolhe justamente a solução menos surpreendente. Chega um momento em que tudo parece tão telegrafado que a animação perde parte de sua identidade, mesmo contando com algumas boas ideias no design dos personagens e em certos aspectos da direção de arte.
Um dos méritos mais evidentes do filme está justamente no visual dos animais e dos cenários. Em vez de insistir no realismo absoluto que marcou outras fases do estúdio, a produção aposta em um estilo mais cartunesco e solto, que combina bem com a proposta. Uma das melhores sequências acontece quando ela abraça totalmente o absurdo de sua premissa e entrega uma cena de ação vibrante, repleta de diferentes tipos de animais robóticos em movimento. É um momento que demonstra o potencial criativo do projeto e revela o quanto o filme poderia ter ousado mais.

No fim das contas, esta animação reflete o momento atual de Hollywood, onde há uma evidente escassez de criatividade convivendo com um nível técnico impecável e alguns lampejos de originalidade. Quando a sessão termina, fica um sabor amargo, principalmente ao lembrar que a Pixar tem em seu catálogo obras magistrais que marcaram gerações. Cara de Um, Focinho de Outro não é um desastre e nem carece de qualidades, mas acaba preso em um molde que o impede de atingir algo realmente memorável.
O filme chega aos cinemas em 5 de março.
Por Tiago Maia.
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