Criado em 2013 pelo governo brasileiro, o Programa Mais Médicos teve como principal objetivo suprir a falta de profissionais da saúde em áreas carentes e remotas do país, onde havia escassez ou completa ausência de médicos. A maior parte destes profissionais vieram de Cuba, e é justamente desse cenário que surge a premissa de “O Deserto de Akin”, filme escrito e dirigido por Bernard Lessa e estrelado por Reynier Morales, Ana Flavia Cavalcanti e Guga Patriota.
A sinopse é a seguinte: “Akin é um dedicado médico cubano em exercício no Brasil, pelo programa Mais Médicos, em meados de 2018. Entre sua rotina de trabalho na comunidade indígena e seus momentos de intimidade com Érica e Sérgio, sua relação com o Brasil se aprofunda e fortalece. Com o resultado presidencial de Jair Bolsonaro e o fim abrupto da cooperação entre os dois países, ele se vê impelido a tomar uma decisão: voltar a Cuba e abandonar as relações que vinha construindo ou permanecer e se reinventar mesmo sem poder medicar.”
Um cinema de observação sobre afeto, pertencimento e identidade
O diretor constrói o ritmo do filme de forma cadenciada, mostrando primeiramente o dia a dia de Akin exercendo sua profissão com cuidado e humanidade em uma pequena cidade litorânea do Espírito Santo. Boa parte da narrativa se dedica a mostrar o papel do programa “Mais Médicos” em comunidades menos favorecidas — o que, em certos momentos, pode soar como propaganda. Ainda assim, essa abordagem revela a escolha consciente da direção em discutir as implicações políticas da história.
“O Deserto de Akin” revela a pessoa por trás do jaleco: um médico que exerce sua profissão por vocação e que, gradualmente, vai desenvolvendo laços afetivos com o Brasil. Os personagens são construídos sem informações expositivas, apresentados por meio do cotidiano. Logo, o filme estabelece a amizade entre Akin e Érica, e mais tarde, um romance com Sérgio, amigo dela.

Temas como solidão e intolerância são retratados de forma quase velada, em alegorias visuais e diálogos contidos. O filme foca em mostrar fragmentos da vida destas pessoas com um tom quase impessoal, em tomadas longas e ambientação naturalista. Mesmo com esse tom minimalista, o filme evita se tornar arrastado, graças à curta duração que contribui para uma experiência fluida e envolvente. Apesar dos temas pesados, a busca dos personagens pela felicidade se torna a força motriz da narrativa.
Um dos planos de fundo do filme é a iminente eleição de Jair Messias Bolsonaro, e esta tensão política é mostrada durante todo o decorrer da história, pois Akin gosta do Brasil, e a eleição de Bolsonaro também representa o fim do programa “mais médicos”, com isso, o filme
O pano de fundo político — a iminente eleição de Jair Bolsonaro — marca presença durante todo o filme. Essa tensão representa não só uma ameaça ao vínculo de Akin com o país, como também o fim do programa que possibilitou sua permanência. A escolha do diretor de inserir esse contexto encontra uma forma de estabelecer um conflito de maior proporção e dar sentido de urgência na trama, que geralmente é o “calcanhar de Aquiles” deste tipo de produção menor.

O Deserto de Akin tem simplicidade estética e riqueza sensorial
Mesmo sendo notavelmente um filme de baixo orçamento, Bernard Lessa soube trabalhar suas limitações em “O Deserto de Akin”. Poucos planos são usados por cena, mas a direção de arte e a ambientação entregam um ar bastante familiar e agradável. Para quem cresceu perto da praia, o filme oferece imagens que evocam familiaridade e conforto.
O trabalho de som (Natália Dornelas) é um dos grandes destaques: desde a primeira cena, os sons ambientes são bem trabalhados, com texturas e camadas que só se revelam com atenção. A fotografia (Heloísa Machado) também se destaca: naturalista, mas bela, especialmente ao capturar as paisagens do litoral capixaba.
As atuações são contidas, mas eficazes. Os personagens falam pouco, mas transmitem muito por meio de olhares e expressões corporais. O bom trabalho dos protagonistas é um fator importante para o espectador chegar ao final do filme se importando com seus destinos.
“O Deserto de Akin” talvez não traga grandes inovações nem represente um divisor de águas no cinema nacional. Mas é um filme com coração, bonito, sensível e comovente. Em tempos de tanto ruído, sua simplicidade é também sua virtude.
O longa abriu o 32º Festival de Cinema de Vitória e chegará em alguns cinemas nacionais em 31 de julho.
Por Tiago Maia.
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